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Aceitá-Lo ou conhecê-Lo?

Tornou-se lugar comum, de há muito, o "aceite a Jesus" nos púlpitos evangélicos por ocasião do apelo.

Curioso, entretanto, é notar que nem o apelo nem o jargão que lhe acompanha encontram-se inseridos na Palavra de Deus, quer no velho, quer no novo testamento.

No livro de Atos, que registra os primeiros passos da igreja de Cristo, não se encontram exemplos semelhantes à prática do apelo, largamente utilizada nos tempos modernos. Com efeito, no capítulo 2, que trata das primeiras conversões, vê-se que a pregação do evangelho por parte de Pedro causou comoção nos corações dos ouvintes (versículo 37), pelo que Pedro os orientou no sentido do arrependimento (versículo 38), o que levou à conversão de quase 3.000 pessoas que "de bom grado receberam a sua palavra" (que não era de Pedro, mas de Deus) e foram batizados. Leia-se, ainda, Atos 4: 1 a 4 e Atos 17:2 a 12, textos que evidenciam que houve pregação da Palavra, não apelo. A reação, por outro lado, não foi de aceitação de Cristo, mas de fé ("muitos creram").

Convém salientar, antes de tudo, que o propósito dessa meditação não é criticar aqueles que se utilizam do método do apelo, quer em púlpitos, quer em métodos pessoais de evangelismo, quer em programas evangelísticos, mas sim refletir à luz da Palavra de Deus sobre o evangelho de Cristo e sobre o Cristo do evangelho, que é arma suficiente, eficaz e poderosa para dar vida aos que estão mortos no pecado.

Sob esse prisma, a pregação da Palavra de Deus e do evangelho de Cristo por si só fala ao coração do perdido e é capaz de gerar a fé necessária ao arrependimento e à salvação. De fato, "a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus" (Romanos 10:17); "Pela graça sois salvos por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus" (Efésios 2:8); "Assim como desce a chuva e a neve dos céus, e para lá não torna, mas rega a terra, e faz produzir e brotar, e dar semente ao semeador, e pão ao que come, assim será a palavra que sair da minha boca. Ela não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei" (Isaías 55: 10 e 11).

Essa última passagem de Isaías nos dá conta de que é o próprio Deus (semeador) que está interessado em que a Sua Palavra (semente) frutifique, e o que Ele mesmo está dizendo é que essa Palavra não volta vazia e efetivamente prospera naquilo para que foi enviada. Surge aqui a primeira questão digna de destaque: Se pregarmos a Palavra de Deus não precisaremos nos preocupar, porque Ela frutificará. Se cremos na Palavra de Deus que afirma que Ela não volta vazia, é desnecessária a prática do apelo, que em muitos casos, inclusive, mais parece "apelação", sintoma de uma exacerbada preocupação em que as pessoas manifestem alguma emoção ou decisão por Jesus, que não encontra nenhum respaldo bíblico. O requisito para a salvação é a fé, e esta é a íntima convicção dada por Deus em relação às verdades reveladas em Cristo concernentes à Sua graça e à Sua salvação. Vemos em Judas 3 a exortação para batalhar pela fé "que de uma vez por todas foi entregue aos santos", trecho que vem corroborar que a fé foi entregue aos santos, e o doador só pode ser Deus, por intermédio de Cristo, instrumento vivo de sua graça, em quem habita toda a plenitude da divindade (Colossenses 1:19 e Colossenses 2:9).

É mister, portanto, identificar se o que estamos ouvindo nos púlpitos é realmente a Palavra de Deus ou se é preceito de homens. Se pregamos a Palavra de Deus e se cremos nEla, não há como continuarmos preocupados com o apelo. Por outro lado, se acreditamos que o apelo é imprescindível para a salvação dos perdidos, incidimos em 2 (dois) equívocos: 1º. Anulamos a fé que vem pelo íntimo conhecimento da Palavra de Deus, que é a verdade, pois essa verdade, uma vez conhecida, produz a liberdade; 2º. Anulamos a Palavra de Deus, por não crermos que o próprio Deus é quem faz a Sua Palavra frutificar por meio da fé, sendo que esta é Ele mesmo quem dá. Se Deus é quem semeia a boa semente, não permitirá que Ela fique infrutífera, mas fará com que ela produza os resultados por Ele desejados.

Vivemos em um tempo em que algumas igrejas não só têm deixado de pregar a Palavra de Deus e o evangelho de Cristo, como têm pregado verdadeiras heresias por causa dos falsos profetas que nelas se têm inserido. Tal constatação não é motivo de escândalo, nem o é tal fato em si mesmo, porque isso nada mais é do que cumprimento da Palavra de Deus, de maneira que até nisso nos regozijamos. Com efeito, lemos em II PEDRO 2: 1 a 3 o seguinte: "Mas houve também entre o povo, falsos profetas, como entre vós haverá também falsos mestres, os quais introduzirão encobertamente heresias destruidoras, negando até o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição. E muitos seguirão as suas dissoluções, e por causa deles será blasfemado o caminho da verdade. Por ganância farão de vós negócio, com palavras fingidas. Para eles o juízo lavrado há longo tempo não tarda, e a sua destruição não dorme". Leia-se, ainda, I TIMÓTEO 1: 3 a 7; I TIMÓTEO 4: 1 e 2; I TIMÓTEO 6: 3 a 6; 9 e 10; II TIMÓTEO 4: 2 a 4; e, finalmente, MATEUS 15: 7 a 9, com relação aos fariseus, nestes termos: "Hipócritas, bem profetizou Isaías a vosso respeito: Este povo honra-me com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim. Mas em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens".

Imprescindível, portanto, é a pregação da sã doutrina. Alguns podem indagar: "Que sã doutrina? A dos batistas? A dos presbiterianos? A dos pentecostais? A dos assembleianos? A dos adventistas? A dos metodistas?". A resposta é: a doutrina de Cristo, a doutrina que é conforme a Palavra de Deus, a qual foi inspirada pelo próprio Deus, e que por Ele mesmo é semeada (vide II Timóteo 3: 16 e 17; Romanos 1: 16 e 17).

É notório que alguns se utilizam de trechos da Palavra de Deus para pregar o que Deus jamais quis dizer, misturando, assim, a verdade com meias verdades (mentiras). Não é de se admirar, pois o próprio Satanás, que é o Pai da mentira, usou a Palavra de Deus para tentar a Jesus, no intuito de desviá-lo do propósito estabelecido desde antes da fundação do mundo (vide Mateus 4: 6). É possível, portanto, que alguns digam que este estudo tem o objetivo de distorcer a verdade. Todavia, creio na "Pedra Angular", eleita e preciosa, por isso sei que jamais serei confundido (I Pedro 2:6). Por outro lado, se a minha vida está oculta em Cristo, nada posso contra a verdade (que é Cristo), senão em favor da verdade (II Coríntios 13:8).

Por tal motivo, destemidamente ouso dizer que pior do que essa mistura perigosa da verdade com mentiras, visando a fins escusos - prática comum em nossos dias - é a pregação de filosofias e preceitos de homens acompanhada de apelo, no intuito de levar alguém à salvação, à libertação dos pecados ou, em alguns casos, visando tão somente o inchaço do rol de membros e o aumento da receita. Para esse fim, alguns "pregam" pouco e apelam muito. Apelam para recursos psicológicos, para o medo da morte (que muitos têm e só por causa disso permanecem nas igrejas), para fundos musicais envolventes, para frases emotivas e de impacto, enfim, utilizando-se de toda sorte de recursos com descaramento tal que escandaliza os que não crêem e irrita aos que crêem na Palavra de Deus. Na realidade, nada mais estão fazendo do que desviando da verdade aqueles que estavam quase escapando do erro, como faziam os fariseus.

Aspecto ainda mais importante para justificar a desnecessidade do apelo e do tradicional "aceite a Cristo" é que a obra de fé é Deus quem realiza. Na qualidade de semeador, Deus não permitirá que Sua Palavra fique infrutífera, como já dissemos antes. Uma vez pregada a Palavra de Deus, Ela não voltará vazia, e a vivificação, que produz a fé e o arrependimento, será operada pelo próprio Deus, através de Seu Espírito Santo, cujo papel é convencer o homem do pecado, da justiça, e do juízo (João 16: 8 a 11).

A propósito, não podemos deixar de citar os comentários do Pr. MISAEL

BATISTA DO NASCIMENTO:

"A base de nossa salvação não é nosso querer, mas o fato de Deus usar o seu favor para conosco. Deus, em nenhuma instância de seu plano, baseou nossa salvação na nossa vontade. Ele buscou, sim, fazer as coisas de tal modo que nossa vontade não fosse violada. Sua graça operou em nós, circunstâncias foram criadas, o Evangelho foi pregado, o Espírito Santo visitou-nos e fez-nos nascer de novo, convencendo-nos do pecado, da justiça e do juízo. Recebemos a fé para crermos em Cristo e nossa vontade foi atraída com os laços de amor do Evangelho do amor de Deus. Isso, no entanto, não significa que fomos nós que optamos por Cristo à parte da ação de Deus em nossos corações. A regeneração decorre da graça e misericórdia divinas e não de nossas decisões isoladas. A vontade humana, na conversão, reage estimulada pelo chamado eficaz do Espírito Santo, de modo que podemos afirmar que, de certo modo, o homem é o agente da fé, cujo objeto é Cristo. No aspecto último, porém, esta fé é "dom de Deus"" ("O Capítulo Nove da Carta aos Romanos e a Doutrina da Eleição").

Não se pode olvidar, igualmente, Filipenses 2:13: "Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade". Essa operação vinda de Deus tem por finalidade levar o pecador a crer no Seu Filho: "Respondeu Jesus: a obra de Deus é esta: que creiais naquele que Ele enviou" (João 6:29). O que Deus quer, e o que Ele efetivamente faz, é nos revelar a Sua justiça e a Sua salvação em Cristo, o que só alcançamos por meio da fé que Ele mesmo dá. Ele é soberano e tem poder para levar quem quer ao arrependimento, usando de misericórdia como bem lhe apraz. A propósito, "Que diremos pois? Há injustiça da parte de Deus? De maneira nenhuma! Pois Ele diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim, pois, não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece" (Romanos 9: 14 a 16).

É de se indagar: Será que queremos ter mais misericórdia do que Deus? Queremos ser mais justos do que Ele? Parece que há muitas pessoas sinceramente interessadas na salvação de seus semelhantes, esquecendo-se, todavia, de que só há salvação por meio da fé, e a fé não é produto da manipulação de idéias e palavras, nem obra de convencimento intelectual, mas dom de Deus resultante da pregação de Sua Palavra ("a boa semente" - vide Lucas 8:11).

Além de a fé ser obra do próprio Deus, é Ele quem revela o Cristo em nós. No evangelho de João, palavras do próprio Jesus nos dão conta de que o Pai é que nos leva a Ele. Vejamos os textos a seguir: João 6: 37 a 40; 44 a 46; 53 a 57; 65; João 10: 26 a 30; João 15:16.

Resta evidente que Jesus não precisa que ninguém o aceite. Ele, sim, foi quem nos escolheu e nos aceitou em seu corpo ("quando for levantado da terra, todos atrairei a mim" - João 12:32), ao incluir-nos em Sua morte, a fim de fazer-nos participantes de Sua ressurreição. Ora, é só assim que adquirimos a vida eterna, que nada mais é do que a vida de Cristo em nós. Bem por isso, Paulo, o apóstolo por excelência, não pregava a "aceitação a Cristo", mas sim a morte e ressurreição com Cristo. O seu testemunho pessoal não era "eu já aceitei a Cristo", mas, sim, "já estou crucificado com Cristo, e vivo não mais eu, mas Cristo vive em mim, e a vida que agora vivo na carne vivo-a na fé do Filho de Deus o qual me amou e a si mesmo se entregou por mim" (Gálatas 2:20).

Do testemunho de Paulo se conclui que até a fé pela qual vivemos não é nossa, mas do Filho de Deus, que afinal é o autor e consumador da fé (Hebreus 12:2). Na cruz Cristo conquistou tudo o que era necessário para a nossa salvação, levando-nos a morrer juntamente com Ele para justificar-nos e livrar-nos do pecado e, ainda, fazendo-nos ressuscitar juntamente com Ele, a fim de que vivamos nEle (Romanos 6: 4 a 9; Efésios 2: 4 a 6; Colossenses 2: 11 a 14), pela fé dEle, pois, afinal, "o meu justo viverá pela fé" (Hebreus 10:38; Romanos 1:17).

Eis aí a essência do evangelho de Cristo, que é o evangelho da cruz. Qualquer outro evangelho é maldição, conforme orientação de Paulo quando escrevia aos Gálatas (Gálatas 1: 6 a 24).

Para que haja regeneração é preciso fé na Palavra de Deus, que revela a morte e a ressurreição do pecador juntamente com Cristo. Nisto reside a justiça de Deus, pois "a alma que pecar certamente morrerá" (Ezequiel 18:20). Assim, o que Deus determinou tem de se cumprir. Eu preciso morrer porque sou pecador. Cristo foi à cruz em meu lugar para cumprir em seu corpo a minha condenação, mas lá me fez morrer juntamente com Ele. A morte de Cristo para o pecado foi a minha morte para o pecado, pois afinal Cristo não tinha pecado (Romanos 6:10). Na ressurreição de Cristo, eu ressurgi juntamente com Ele para poder, então, viver para Deus (Romanos 6: 4 a 9).

Eis porque o que precisamos não é aceitar a Cristo, mas conhecê-lo. Não obstante, o próprio Jesus disse que só o conhecem aqueles a quem o próprio Deus o revela. Conhecimento intelectual muitos têm. Os fariseus, por exemplo, criam na ressurreição de Cristo, mas nem por isso experimentavam o efeito dela em suas vidas, porque não criam na necessidade, nem sentiam a necessidade de ressurreição em Cristo. Paulo, que antes de regenerado perseguia a igreja de Cristo e recalcitrava contra os aguilhões de Deus, deu testemunho da graça que lhe foi outorgada dizendo: "Mas quando aprouve a Deus, que desde o ventre de minha mãe me separou, e me chamou pela sua graça, revelar seu Filho em mim, para que o pregasse entre os gentios, não consultei carne nem sangue..." (Gálatas 1: 15 e 16).

Deus é quem revela o Seu Filho em nós. Eis aí um mistério que esteve oculto durante séculos e gerações, e que nos últimos tempos, desde a ressurreição de Cristo, tem sido revelado aos santos (Colossenses 1: 26 a 28; Colossenses 2: 2 e 3; I Pedro 1:3). Conhecer a Cristo, portanto, não é simplesmente confessá-lo, nem admitir que o aceitamos. Conhecer a Cristo é viver a vida dEle, o que só se torna realidade quando cremos que morremos com Ele e com Ele ressuscitamos. A troca do "eu" por Cristo é obra de fé realizada pelo próprio Deus, após a manifestação de sua Palavra e a vivificação por Seu Espírito.

Desse modo, somos incapazes de dar vida a nós mesmos, muito menos aos outros. J.C. RYLE, quanto à vivificação da alma morta, com muita propriedade, afirma:

"Uma coisa está bem clara: não conseguimos efetuar essa mudança gigantesca por nós mesmos. Não depende de nós. Não temos força ou poder para tanto. Podemos mudar os nossos pecados, mas não podemos mudar os nossos corações. Podemos assumir um novo caminho, mas não uma nova natureza. Podemos fazer reformas e alterações consideráveis. Podemos deixar de lado muitos maus hábitos e começar a assumir deveres externos diversos; mas não podemos criar um novo princípio dentro de nós. Não podemos fazer algo a partir do nada. O etíope não pode mudar a sua pele, nem o leopardo as suas manchas, e nem nós podemos dar vida às nossas próprias almas (Ver. Jer. 13:23). Quem, então, pode tornar viva uma alma morta? Ninguém, a não ser Deus. Só Aquele que do nada formou o mundo no dia da criação pode fazer de alguém uma nova criatura. Só quem formou o homem do pó da terra, dando vida ao seu corpo, poderá dar vida à sua alma. É ofício especial de Deus fazer isso pelo Seu Espírito Santo, e só Ele tem poder para realizar tal coisa" ("Vivo ou morto?", Ed. Fiel, p. 14/15).

Em MATEUS 7: 21 a 23 lemos que nem todo o que confessa "Senhor, Senhor" entrará no reino dos céus. Nem mesmo os pretensos profetas, operadores de milagres, e exorcistas, aos quais Jesus mesmo dirá: "Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade". Essa palavra deve ser frustrante para muitos que estão em busca de sinais e prodígios. Como disse Jesus, "Bem-aventurados os que não viram e creram" (João 20:29). Hoje em dia, as pessoas estão em busca de evidências do poder de Deus, esquecendo-se de que "sem fé é impossível agradar a Deus" (Hebreus 11:6), e de que o maior milagre que Deus poderia realizar ao homem já foi realizado na cruz e na ressurreição de Jesus.

Convém, aqui, abrirmos um grande parênteses para tecer algumas considerações sobre "fé", auxiliados por MILES STANFORD, que também cita vários outros conhecidos autores cristãos:

"A fé estabelecida sobre os fatos da Palavra de Deus consubstancia e evidencia as coisas que não se vêem. E todos sabem que a evidência precisa estar fundamentada sobre fatos. Todos nós partimos desse princípio quando nascemos de novo - nossa crença firmou-se diretamente sobre o fato eterno da morte redentora e da ressurreição de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (I Cor. 15:1-4). Essa foi a fé com a qual começamos, e é a mesma fé pela qual temos de "permanecer firmes" (I Cor. 16:13), e "andar" (II Cor. 5:7) e "viver" (Gal. 2:20b). "Como recebestes a Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele" (Col. 2:6).

Desde que a verdadeira fé está ancorada sobre fatos bíblicos, é claro que não devemos nos deixar influenciar por impressões. George Mueller disse: "As impressões nada têm a ver com a fé. A fé se relaciona com a Palavra de Deus. Não são as impressões, fortes ou fracas, que farão a diferença. Temos de nos importar com a Palavra de Deus, não conosco ou com nossas impressões".

Alexander R. Hay acrescenta algo mais, dizendo: "A fé precisa se basear na certeza. Tem de haver um conhecimento definido dos propósitos e da vontade de Deus. Sem isso não pode haver verdadeira fé. Pois a fé não é uma força que nós exercitamos ou uma luta para crermos que algo vai acontecer, pensando que se crermos com bastante força, a coisa acontece mesmo". Isso pode ser pensamento positivo, mas certamente não é fé bíblica.

Evan Hopkins escreve: "A fé precisa de fatos para repousar neles. A presunção pode aceitar a fantasia em lugar do fato. Deus nos revela na Sua Palavra os fatos com os quais a fé tem de lidar". É sobre essa base que J. B. Stoney pode dizer: "A verdadeira fé sempre se desenvolve com a oposição, enquanto que a falsa confiança é prejudicada e desencorajada com a mesma". Não pode haver firmeza sem os fatos irremovíveis. A preocupação de Pedro era: "Para que o valor da vossa fé, uma vez confirmado, muito mais precioso do que o ouro perecível, mesmo apurado por fogo, redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo" (I Ped. 1:7).

Quando começamos a dar valor aos fatos, nosso Pai começa a nos modificar na fé. Por causa de sua profundamente simples confiança em Deus, Mueller podia dizer que "Deus se deleita em aumentar a fé dos Seus filhos. Em lugar de não querer as lutas antes da vitória e de não querer as provações que produzem a paciência, deveríamos estar prontos a aceitá-las da mão de Deus como um meio de obter a fé. Eu digo - e o digo com deliberação - as provações, os obstáculos, as dificuldades e, às vezes, as derrotas, são o próprio alimento da fé"" ("Normas para o Crescimento Espiritual", Ed. Imprensa Batista Regular, São Paulo, 1988, p. 7, 8 e 9).

Fechado o parênteses, cumpre ressaltar que Jesus revela Deus a quem Ele quer. Em MATEUS 11: 25 a 27 está escrito: "Por esse tempo, disse Jesus: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, pois assim foi do teu agrado. Todas as coisas me foram entregues por meu Pai. Ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar". Logo, confrontando tal texto com outros que já citamos, conclui-se que o Filho revela o Pai, e o Pai revela o Filho. Nada mais coerente, afinal Cristo é a própria Palavra de Deus: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez" (João 1: 1 a 3). E, ainda: "Pois três são os que dão testemunho no céu: o Pai, a Palavra, e o Espírito Santo; e estes três são um" (I João 5:7); "E o testemunho é este: Deus nos deu a vida eterna, e esta vida está em seu Filho" (I João 5:11). (vide, ainda, João 11:25; João 12: 44, 48 a 50; e João 14:6).

Resta claro que Cristo é a Palavra, o Verbo de Deus. Conhecê-lo é entender-lhe, crer nEle, viver nEle e por Ele: "Também sabemos que o Filho já veio, e nos deu entendimento para conhecermos aquele que é verdadeiro. E estamos naquele que é verdadeiro, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna" (I João 5: 20). "Ora, a vida eterna é esta: que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste" (João 17:3). Logo, só pode ter a vida eterna quem está em Cristo, pois Ele é a própria vida eterna. Quem pensa, portanto, estar gozando a vida eterna com o ego não crucificado longe está da verdade. FROMKE, citado por MILES STANFORD, com propriedade, salientou: "Deus lida com todos os crentes na base deste princípio - "Em Cristo você morreu". Mas a igreja de Cristo, como um todo, ignora este fato. Trata a criação decaída (e a vida do ego) como se fosse capaz de melhorar, e o significado da cruz que leva à morte a velha raça adâmica fica assim nulificado" (Ob. cit., p. 54). EVAN HOPKINS, também citado por STANFORD, traz o princípio da solução: "Tomaremos o nosso lugar no lado da cruz que apresenta a vitória da ressurreição e, fazendo assim, deixaremos para trás a velha vida do ego pela nova vida em Cristo. Viver nEle, que é a nossa vida, é estar no poder de Deus" (Idem, p. 60). Para que Cristo viva em mim o meu "eu" deve estar crucificado, pois "se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica só. Mas se morrer, produz muito fruto" (João 12:24). Nessa parábola, parece óbvio, o "grão de trigo" somos nós, e a "terra" é a própria Palavra de Deus. Em Marcos 8:35 Jesus deixa claro que "quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas quem perder a sua vida por causa de mim e do evangelho, esse a salvará".

Conhecer a Cristo Jesus é ser participante de Sua vida, o que só pode ser experimentado quando cremos em nossa morte e ressurreição juntamente com Ele. Tal experiência é meramente de fé, e esta fé não vem de nós mesmos, mas é dada por Deus.

A propósito, sobre a necessidade de conhecimento de Cristo, escreveu o festejado WATCHMAN NEE:

"Em assuntos espirituais, freqüentemente lidamos com questões que se tornam vazias e sem qualquer utilidade espiritual para nós. Precisamos então pedir a Deus que abra nossos olhos de modo que possamos conhecer Seu Filho. A característica do cristianismo reside no fato de sua fonte, profundidade e riqueza estarem vinculados ao conhecimento do Filho de Deus.

Não importa o quanto conhecemos sobre métodos, doutrinas ou poder; o que realmente importa é conhecer o Filho de Deus. Conhecer que o Filho de Deus é o caminho, conhecer que o Filho de Deus é a verdade e conhecer que o Filho de Deus é a vida. Nosso poder provem de conhecermos Seu Filho. Tudo que Deus nos dá é Seu Filho, não uma variedade de coisas. A questão reside, portanto, em conhecermos o Filho de Deus" ("Cristo, a essência de tudo o que é espiritual", editora Tesouro Aberto, Belo Horizonte, 1969, p. 7 e 8).

Dou testemunho de que enquanto não tinha conhecimento da Palavra, e enquanto não me havia sido revelado, pela Palavra, o Cristo em mim, nenhuma eficácia teve a minha suposta "aceitação de Cristo" no combate contra o pecado. É que sem a morte da minha natureza pecaminosa eu estava fadado a viver escravo do pecado, pois "aquele de quem um homem é vencido do mesmo é feito escravo" (II Pedro 2:19). 30 anos de vida sem o conhecimento de Deus e de sua preciosa Palavra, e ainda por dentro uma falta de paz que nem cargos na igreja, nem práticas eclesiásticas bem intencionadas conseguiram tirar (graças a Deus).

Quero, pois, com toda humildade, mas com a autoridade da Palavra de Deus, ajudar outros a entenderem que foi Cristo que nos aceitou quando éramos ainda pecadores, fazendo-nos crer em nossa morte na Sua cruz e na nossa ressurreição juntamente com Ele, a fim de que, mortos para o pecado, pudéssemos viver para Deus, nEle (Cristo, o amado de Deus - vide Efésios 1: 3 a 6).

Cristo não necessita que o aceitemos. Nós é que somos carecedores de Sua graça e de Seu perdão, os quais já nos foram outorgados na cruz. Se é pela graça que somos salvos, não há nada que necessitemos ou possamos fazer, pois o veículo da graça é a fé, e esta não vem de nós, é dom de Deus, revelado em Cristo (autor e consumador da fé) e manifestado pelo Espírito Santo. O segredo, portanto, é pedir a Deus que revele Seu Filho em nós, a fim de que O conheçamos verdadeiramente, sendo assim libertos de nosso "eu", de nossa natureza adâmica. "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará"; "Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres" (João 8: 32 e 36).


Fonte: http://www.pibp.com.br/pibp/estudos_e_artigos/a/aceita-lo_ou_conhece-lo.php

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